Os filmes
de João César César Monteiro, em particular os três filmes que veremos nesta
sessão e que constituem o começo da carreira do cineasta, têm sido arrumados
com o recurso a critérios não direi peculiares – noutros lugares e com outras
gentes o processo ocorre igualmente – mas certamente extra-cinematográficos.
Diz-se então que: 1. O César é doido varrido; 2. O César é o único que se podia
lembrar de fazer uma coisas destas. Por vezes, para colorir de cinefilia a pintura,
os mais expeditos acrescentam que ele é da família do Garrel, até porque,
factos são factos, os filmes de um e de outro não corriam bem com o público.
Percebe-se
a ideia, embora a imagem seja má, porque, filmes peregrinos, não foram feitos
para correr, mas para andar devagar. E sobre os SSS da Sophia, Sapatos
e Sagrada foi o que corriqueiramente se disse, ou pelo menos aquilo a
que pus a vista em cima.
Vamos por
partes e diferentemente. Os três títulos que vamos ver não relevam de uma
organização racionalmente demonstrativa, capaz porventura de ombrear com o
“more geométrico” de Espinosa, mas também não caucionam a esquizofrenia como
princípio fabricador da obra cinematográfica que se supõe ser o sentido
subentendido da expressão “O César é doido varrido”. Não sei se ele o é ou não,
mas lá que os filmes parecem infirmar a hipótese...Quando Veredas foi
exibido nas salas portuguesas, João Bénard da Costa escreveu: “Os seus filmes
são filmes para gente bem educada com certas leituras, certa música, certos quadros,
certos filmes. Entroncam numa família de cineastas que se preocupam mais com o
que têm a dizer do que com o que o espectador gostava que eles dissessem”. Ora,
se o João Bénard tiver razão, isto supõe uma consciência prévia do próprio
trabalho que se casa mal com a antiquíssima ideia da loucura e sopro poético a
que, em geral, as pessoas assacam a responsabilidade do que “não se percebe” ou
“não quer perceber”.
Vejamos
pois se os filmes confirmam ou desmentem a ideia acima de João Bénard da Costa.
O primeiro
é a Sophia. O que é que se filma? Uma biografia? A obra poética da
senhora que dá título ao filme? Decididamente não, responde-se ao primeiro
quesito, também não é isso, direi ao segundo. “Ah! Então filma-se contra o
poeta e contra os poemas”, objectar-me-á um atento e avisado leitor das ideias
de e sobre “estética” postas em circulação por “jornalistas culturais”. Ora a
ideia modernaça do “mundo às avessas” fica aqui muito mal vista, porque é uma ideia
defensiva, uma daquelas couraças negativas em que a década de 80 – a
herança do século XIX por via dos anos 60 – ainda é fértil. O propósito de João
César é positivo e daí a sua contingência. Qual? Cito-o: “No que ao meu filme
diz respeito, suponho que, antes do mais, ele é a prova, para quem a quiser
entender, que a poesia não é filmável e não adianta persegui-la”. Detenhamo-nos
com mais pormenor em três exemplos:
a) Leitura
da Menina do Mar por Sophia de Mello ao seu filho Xavier em longo plano
fixo (3 minutos disse J.C.M e é verdade que eu cronometrei). A panóplia
cinematográfica apaga-se, ou fixa-se, mas em vez do esperado “poético”, o que
ressalta, marcando o ritmo do plano, é a voz de Sophia. Como, no final do
plano, o Xavier critica a voz da mãe e J.C.M.
dixit, “como a duração do plano assenta no movimento que anima a voz de
Sophia a ler; a crítica que o Xavier
lhe faz equivale à crítica do próprio plano e, portanto, obriga o espectador a
restaurar-lhe o sentido através da necessidade de o ler de novo”. Entenda-se, o
mais importante do plano é, no fundo e não apenas no fundo, de ordem
estritamente cinematográfica, levantando essa ingente questão que é a da
relação entre os ritmos sonoros e a imagem que os integra;
b)
Sequência da leitura da “Arte Poética”, que começa com Sophia em campo a dizer
o poema, ao que se segue violenta manipulação pondo-a a “dizer em off”
enquanto a imagem diz outra coisa (plano dos miúdos a correr e planos do
mercado). Não vou voltar àquela triste conversa de significados e
significantes com que nos andámos a
chatear de morte uns aos outros nas duas décadas anteriores à que habitamos,
mas a verdade é que as palavras do poema e os peixinhos mortos na lota,
devidamente sincronizados pelas respectivas bandas (imagem e som) se
transformam em humildes materiais cinematográficos, passando de signos a
ícones, o que, como poderão confirmar em casa nos manuais que têm no sotão, não
é nada a mesma coisa. Já ouvi dizer que o cineasta é católico. Pelo menos era.
Talvez por isso, teve fé bastante para acreditar no milagre, não o da manipulação,
mas o da transfiguração dos peixes. O poema de Sophia entra aqui como o pão
para a boca;
c)
Sequência da leitura do poema “Esta Gente”, dito em off, enquanto na
imagem se regista somente o volume da arquitectura, fora a fugaz passagem de um
ou dois vultos. Lá se vai outra vez a ideia de que o que se está a ouvir e a
ver tem de ser unha com carne. Monteiro disse que, ao “não dissimular a
arbitrariedade da imagem com a palavra, evitei os embustes em que os Macedos
& Cº caem tão ingénua quanto habilidosamente”. Para falar dos cineastas do
“Cinema Novo” – e o César é do cinema Novo, de um certo Cinema Novo, onde cabe
antes de mais Paulo Rocha e logo a seguir o Fernando Lopes – só há uma outra
curta-metragem que evita o embuste, A Pousada das Chagas de Paulo Rocha,
mesmo se visam contemporaneidades distintas. A Pousada é contemporânea
de um movimento de reabilitação do teatral e do operático, enquanto a Sophia
é contemporânea do mesmo classicismo que faz de Murnau, Dreyer e Godard gente
da mesma idade (embora seja certo e sabido que há outro Godard, com outra
idade).
M.S.
Fonseca
Publicado
pela Cinemateca Portuguesa, a 20 de Abril de 1985