UM
PROVÉRBIO CINEMATOGRÁFICO
Sapatos começa
com "filme no filme", o que se pode ler de duas maneiras:
a)
aproveitamento das contingências da produção (leia-se a "Certidão" de
João César Monteiro), confirmando a proverbial sabedoria popular de que ele há
males que vêm por bem;
b) uma referência ao carácter
especular do cinema. Para que não se pense que isto é prosa de pasquim cultural
sempre acrescento que ao escrever especular estava a pensar nos espelhos
paralelos de uma barbearia, que multiplicavam a nossa imagem até onde a vista
alcança, e nas bonecas russas que têm uma e outra e outra boneca dentro. Também
se pode pensar na Caverna de Platão, mas isso é uma coisa que, como as orações
ao deitar e ao levantar, se pensa pelo menos duas vezes ao dia. pelo que mais
vale pensar noutra coisa.
Fim do
"filme no filme", genérico, branca (que era para ser negra, só que da
intenção ao fenómeno vai película e laboratório) com música, plano de conjunto
no Martinho da Arcada, grande plano da barata que cai no copo e, na companhia
do Godard mais Nouvelle Vague que se conhece procede se a execução de
urgente expediente, sem o que certas ambições afectivas tendem para o zero ou
infinito. O mais bonito desta digressão - e eu acho muito mal feito, até porque
é deixar-se ir pelo mais obvio, falar de abjeccionismo a propósito dos filmes
de João César Monteiro quando neles (os filmes) e sempre do conhecimento da
beleza que se trata, o que me faz acreditar que faço muito bem dizer bonito
como quem diz uma coisa mais secreta - o mais bonito, dizia eu é o modo de
entrar e sair de campo, sobretudo no plano do patamar da casa do falecido
Almirante, quando Mário sai de campo ao mesmo tempo que entra feminino braço e
um par de sapatos; o rapaz volta a entrar e puxa para dentro de campo sapatos e
sopeirinha. É um plano sem mácula: com inteira verdade aí esta aquilo a que
costumamos chamar alegria.
A segunda
parte mostra, mais do que relata, o encontro de Lívio com a mulher amada sugerindo-lhe
com subtileza a viva decepção do encontro. A "segunda parte" é o
negativo da "primeira", carregadamente romântica, dando a desfrutar o
espectáculo da irreconciliação Cito o
autor :"Digamos, para simplificar, que Lívio só poderá reconciliar-se consigo
próprio em termos estéticos; só a criação poderá compensar a sua extrema
fragilidade e restituir-lhe a 'voz canora' o olhar de Orfeu "
M .S.
Fonseca