Apesar da importância de João
César Monteiro como cineasta e de Silvestre na sua obra este filme é, salvo
erro, um "inédito" nesta sala. Lacuna que se preenche (finalmente)
agora, na sequência de muitos pedidos dos nossos habituais espectadores. A
exibição impõe-se ainda mais na medida em que dispomos duma cópia nova em que
podemos apreciar de novo a beleza da fotografia de Acácio de Almeida em todo o
seu esplendor, e este é um dos seus trabalhos mais perfeitos na disposição das
cores que dão uma tonalidade sensual ao filme e, simultaneamente,
"pintam" um cenário que corresponde à imagem idealizada dos contos
populares tal como eram ouvidos pelas crianças. Aliás tal reconstrução
psicológica apoia-se também nos cenários pintados, aparentemente simplistas,
que têm mais a ver com esse imaginário primitivo e popular do que com as
"miniaturas" medievais que formam o pano de fundo de filmes como Henry V de Laurence Olivier e Perceval le Gallois de Eric Rohmer, que
poderiam ser algumas das influências estéticas de Silvestre. Mas o filme de César Monteiro está, de outro modo, muito
influenciado pela pintura medieval e renascentista, de um Boticelli e de um
Rafael, para que remetem alguns planos de Maria de Medeiros, enquadrados (e
pintados") com especial cuidado para sublinhar essa filiação.
Quarta longa-metragem de César
Monteiro, Silvestre encerra a
primeira fase da sua obra, a que vem desde a curta metragem Sophia de Mello Breyner Andresen
(1968), a que parte em busca das raízes culturais de Portugal e que pode
afirmar-se de forma mais clara a partir da Revolução de Abril. Que Farei Com Esta Espada? é o
"começo" da busca e Veredas
(1975/77) o seu encontro. Veredas,
aliás, é uma espécie de "movimento" que leva Monteiro às mais
profundas tradições da cultura popular, busca que continua numa série de médias
metragens feitas para a televisão (O
Amor das Três Romãs, Os Dois
Soldados, O Rico e o Pobre), e cuja meta é Silvestre, verdadeira catedral onde se reúnem todos os temas dessa
cultura popular. A este filme segue-se uma "pausa" marcando À Flor do Mar o início de um novo ciclo
de que o recente As Bodas de Deus é
o remate. Num texto - carta "dirigido" a Carlos de Oliveira (a quem Silvestre é dedicado, e basta reler Finisterra para entender o porquê), que
acompanhou a exibição do filme no Festival da Figueira da Foz em 1981, César
Monteiro diz que se "O resultado, um pouco aquém das minhas expectativas,
não é ainda a vergonha" "o essencial, o que tem a ver com um
imaginário genuinamente nosso, está devidamente salvaguardado". Esta
última afirmação parece- me inteiramente correcta, podendo-se acrescentar,
inclusive, que filme algum ao longo dos cem anos da nossa cinematografia, conseguiu
"captar" de forma tão "pura" esse imaginário. Muitos filmes
"etnográficos" se fizeram, especialmente após o 25 de Abril, muitos
deles interessantes, outros cheios de boas intenções, mas a "alma" da
cultura popular, com tudo o que tem de malicioso e ingénuo, de tosco e brutal,
de simplista e alegórico, jamais fora captada com tal verdade psicológica. Não
no sentido da sua "reprodução" mais ou menos "oficial",
mais ou menos "real", mas antes da forma como é "recebida"
e "assimilada" pelos destinatários dessas histórias tradicionais: a
infância. Silvestre é essa infância
reencontrada no íntimo de cada um de nós, e mais particularmente daqueles cujas
raízes estão ainda próximas dessas origens. As histórias que César Monteiro
encena em Silvestre, A Mão do Finado
e A Donzela que Foi à Guerra, fazem
parte do património oral da província, e quem aí cresceu, pela voz de amas ou
avós, a elas teve acesso. A beleza do filme de César Monteiro neste aspecto é
que parece ter conseguido entender e recriar as "imagens" idealizadas
por quem ouvia essas histórias, inclusive na sobrecarga de cor, na utilização
de cenários pintados (também herdeiros dos cenários dos teatros populares
medievais) e na "impressão" de "horror" que a presença
"demoníaca" do personagem de Miguel Cintra deixa impressa desde o
primeiro plano em que aparece, subindo a ladeira sobre um cenário projectado e
trazendo com ele a tempestade e o céu vermelho. Este jogo de cores, de
representações" não realistas sobre ecrã com projecção frontal (representações
a que Jorge Silva Melo traz um sinal de irreverência com o seu perfil e rosto
de então que evocam Woody Allen), esta exploração de cenários e a aproximação
às lendas e tradições que enformam o imaginário popular, está, por sua vez,
mais próximo do cinema de Syberberg, de um Ludwig
e de um Hitler (e Parsifal, que é de 1982), referências
que Monteiro rompe ao longo da narrativa com a introdução de cenas de caracter
"bucólico" (o banho no rio, o trabalho no campo). Filme
"total" Silvestre marca o
apogeu de um "estilo", o término de um "olhar", que culmina
nos olhos de Maria de Medeiros no plano final que a pouco e pouco se dilui no
"cosmos", plano que pode evocar o começo de Dune de David Lynch mas que anuncia também a "projecção"
cósmica a que a obra de Monteiro aspira na segunda fase, sendo aquele plano do
"cosmos" uma imagem recorrente nos filmes seguintes (As Bodas de Deus começa, exactamente
com essa imagem). Silvestre é o
culminar dessa primeira fase da obra do realizador e, por tudo o que é, e o que
anuncia talvez seja mesmo a sua obra prima.