Dois anos depois do Leão de Prata, o
realizador fala em Veneza do seu último filme
Manuela
Paixão
Em Veneza
IRÓNICO,
afirmando que fazer filmes deve ser um momento de divertimento, senão fazem-se
outras coisas, como por exemplo lavar a loiça, João César Monteiro encontra-se
pela segunda vez em Veneza, uma cidade que ele ama e que o ama.
Há dois anos, com Recordações da Casa
Amarela, o realizador português venceu o Leão de Prata, o segundo prémio do
certame. E, possivelmente, com O Último Mergulho prepara-se para
representar Portugal nos festivais de Montpellier, em França, e de São Francisco, nos EUA. Alegre, afronta com enorme
ironia uma plateia de jornalistas intimidados com O Último Mergulho e as suas metáforas e alusões.
«Se não gostasse de fazer filmes, faria outra coisa: é esta a mensagem que dou ao meu filme quando o velho Elói se mata, deitando-se ao Tejo, depois de dois dias de copos, putas e festejos de Santo António. Queria dizer que, antes de morrer, é necessário divertirmo-nos como doidos», disse-nos em Veneza João César Monteiro.
DN — «Recordações da Casa Amarela» não
teve uma distribuição fácil em Itália, apesar de ter vencido um Leão de Prata
em Veneza. Como foi no reste do mundo e em Portugal ?
João César Monteiro - Mais ou menos o mesmo. Mas também não era
esse o ponto. Mesmo que seja curioso. Porque, no final de contas, é só um
filmezinho...
JCM — Não duram assim tanto. Apenas
11 minutos. Para mim não é
muito. Além de que eu não consigo cortar o que filmei só porque é longo. Não
toco nunca naquilo que achei que devia filmar. Quanto ao segundo bailado sem
música, a razão é muito simples. O som não era necessário, era de facto inútil.
É uma dança interior. A mim, o que me interessava era filmar os movimentos do
corpo de uma actriz que dança, e que, nessa altura, tem uma relação diferente
com a luz. Tudo porque Fabienne Babe,
que no filme é muda, procura a luz.
Eu adoro o tempo que passa, adoro ver
passar o tempo. Não me parece que 11
minutos de dança seja muito.
DN — Nos seus filmes os personagens
cumprem sobretudo percursos, ao longo das ruas. Em «O Último Mergulho»
percorrem Lisboa, uma cidade linda, de noite. Porquê?
JCM - Porque eu faço cinema. Cinema
verdadeiro. Onde há movimento. O movimento que existe, por exemplo, não só nos
percursos e passeios pelas ruas de Alfama mas também na voz que no final do
filme, num ecrã totalmente negro, recita em francês e em português os poemas de
Hyperion, de Hölderlin. É o meu lado estético.
A voz tem movimento, cor. Mas sei que, por
exemplo, também irrita e chateia o espectador. Mas ele pode sempre sair...
DN — Mas porquê essas citações poéticas
no final do filme?
JCM - Hölderlin é um poeta que eu amo
muito. Pelas suas ideias, um pouco comunistas, um pouco anarquistas. Podemos
dizer que as citações constituem uma espécie de manifesto cinematográfico...
DN — Como nasceu a ideia deste filme?
JCM — Este filme não estava previsto
ou planeado. No princípio havia só o
pedido do meu produtor para contribuir para uma série de curtas metragens com
20 minutos cada uma. O projecto que eu escrevi, e que era muito mais
sofisticado e detalhado, transformou-se depois em filme. Acontece muitas vezes
assim...
DN - A propósito de esperanças não
mantidas, há alguma alusão específica no facto de o hotel onde se encontram as
putas com Elói e Samuel se chamar Hotel 25 de Abril, tendo um cravo na
tabuleta?
JCM - Sem dúvida. Até porque este
filme é uma pequena espiral, ou pelo menos desenrola-se segundo uma espiral. É
barroco puro, por isso mesmo tem música de Bach. Nós, latinos, sobretudo nós,
portugueses, lusitanos, do mesmo modo que os italianos não conseguem não ser
comediantes, não fazer comédias, nós, dizia eu, funcionamos num sentido
vertiginoso de espiral. Ninguém nos consegue segurar.
É por isso que eu, quando faço um filme de
que gosto (são aliás os únicos filmes que faço), não consigo parar. Entro nessa
vertiginosa espiral. Sigo os conselhos
do grande mestre do cinema, Rossellini, que dizia que o dinheiro não serve para
comer mas para fazer filmes...
DN — Porque é que o velho, depois de ter
estabelecido uma relação tão simpática com Samuel, depois de duas noites com
ele, se atira ao rio?
JCM — O velho morre, sim. O jovem,
não. Porque encontrou uma belíssima rapariga, Esperança. Eu também faria o
mesmo no caso do jovem, porque não é todos os dias que se encontra uma rapariga
assim tão bela...
DN — O que acontece à velha paralítica,
que nunca vemos, só a ouvimos lamentar-se, imaginamos que ela esteja na cama?
JCM — A velha paralisada tem
reumatismo. É uma grande chata. O seu personagem é muito típico. Eu queria
dizer que essas pessoas existem, mas não têm qualquer tipo de peso.
DN — Mas no final qual é o significado do
seu filme? Porque o fez?
JCM — É muito simples. Quando se
filma alguma coisa, fazemos a velha história de Lumière: o combate com o real,
com as coisas que estão ali.
Algumas vezes enganamo-nos. Eu gosto de ver filmes. Mas
filmes que sejam cinema, e não fogo-de-artifício. A maior parte dos filmes hoje
produzidos são só merda... merda... Mas talvez eu já esteja a divagar...
DN - O que pretende obter do cinema?
JCM - O que pretendo obter do cinema?
Procuro obter aquilo que está para lá do visível. Filmar é fazer ver o que não
é uma realidade visível. Por exemplo, filmar o Sol é impossível. Quem o fizer
pode ficar cego. Mas em contraluz é possível ver e fazer ver a luz. Para mim é
uma questão de ética cinematográfica, porque o olhar traz sempre consigo uma
violência.
Definindo-se como um cineasta literário,
João César Monteiro impressionou muitíssimo os seus intérpretes estrangeiros,
nomeadamente Fabienne Babe, a protagonista, pelo seu poder de criatividade,
imprevisibilidade e capacidade de improvisação: «O Último Mergulho é um filme diferente de todos os que fiz
até aqui. Pude fazer tudo, não houve restrições. Pude até divertir-me. Era
estranho, porque não havia texto, eu não precisava de falar, era
como um presente para mim, fazer um filme deste
modo. Eu estava pronta para fazer tudo. O divertido era também que, quando se
inventava, tinha de se inventar em poucos minutos.»