Dez anos
depois, estreia finalmente «À Flor do Mar»: sons e gestos que convocam a
ideia de equilíbrio perfeito
INVIOS são
os caminhos do cinema. Mas talvez calhe bem que só agora, dez anos e três
filmes depois, À Flor do Mar dê à costa, devagar, como se a maré lhe
pudesse ser, enfim, de feição. É tão diferente das obras que consolidaram a
fama de João César Monteiro que pode causar perturbação em quem vê e espere
encontrar João de Deus, ainda que de outro modo. Não encontra. Mas encontra uma
cintilação tão cristalina das formas cinematográficas que bem pode o espectador
perceber como o cinema calha ser uma vibração em estado puro, uma conjugação de
gestos, olhares, luz, sons, sentimentos. Merecimentos desta estreia tão tardia
se deverão atribuir a Paulo Branco,
produtor para quem César Monteiro regressou após uma longa ausência (Silvestre), distribuidor e exibidor
que abre o Verão com o mais solar dos filmes daquele realizador.
Liga-me a À
Flor do Mar não sei que enlevo particular. Vi-o mal ficou concluído e
tomei-me de amores pelo filme. Escrevi então um texto de entusiasmo. Revi-o
depois, mais do que uma vez, em múltiplos lugares e com diferentes públicos (na
Cinemateca, no Festival de Pesaro, na RTP) e sempre me quedei pela rendição
forçada. E explico: não é filme que nos tome o braço e nos seduza logo ali.
Verdade, verdadinha, começo sempre por
me irritar com a multiplicidade das línguas (Laura Morante fala italiano, os outros
falam português e ninguém parece dar-se conta de que não estão a comunicar no
mesmo idioma). Mesmo sendo certo que, mais tarde, essa multiplicidade terá a
sua lógica explicação, esse começo deixa-me sempre incomodado. Na realidade, o
filme só me abraça naquele longo plano em que Laura Morante e Manuela de
Freitas falam — e é de noite. Depois, não mais me larga. Sublinho: apazigua-me,
enleva-me, comove-me. Nunca percebi porque é que Teresa Villaverde — que em À
Flor do Mar fazia primícias como actriz — se desgosta tanto do que nele
deixou (uma juventude fugidia, uma cena de amor que começa canhestra e termina
com um sorriso daqueles que se nos gravam na memória). Esse plano de amor (com
Marceneiro no som) é de uma beleza que estremece. Como é o plano- sequência
antes do último jantar. Ou aquele outro,
fulminante, de Laura Morante, ao espelho, a convencer-se de que está
morta.
Não há
forma de contar este filme. Digamos que ele se organiza entre a luz de Bach e a
luz de Piero Della Francesca, num desejo violento de harmonia, num jogo de
cromatismos, sons e gestos que convocam a ideia de equilíbrio perfeito. Mas,
como na evocada Exaltação da Santa Cruz, de Arezzo, há algo que a fende
de alto a baixo. Em Arezzo, são as tempestades do tempo que destruíram, na zona
central, a beleza imponente do fresco de Piero; em À Flor do Mar, é uma
espécie de convicção íntima de que os grandes heróis românticos e libertadores
se tomaram impossíveis que rompe a serenidade do conjunto. Por isso, talvez
esteja muito certo o corpo de Philip
Spinelli, quando numa primeira aproximação pareceria mais lógico o de Ben
Gazzara ou o de Robert Mitchum, à falta de Gary Cooper, que já não era
possível. Digamos que alguma fragilidade, alguma sensação de superfície sem
profundidade se adequa muito melhor àquele fantasma que a solidez dos outros.
Não sei porquê, mas Gazzara ou Mitchum haviam de voltar, haviam de não deixar
que aquela casa se fechasse, luzes e gentes, depois da partida de Robert, o
homem de quem, de diferentes maneiras, aquelas mulheres estavam à espera. A
felicidade, nestes dias, será um ultraje?
Assim
parece inferir-se deste filme todo feito a persegui-la, todo edificado sobre
ideias simples de prazer (as refeições, tão importantes em todos os filmes de
César Monteiro, encontram aqui uma espécie de orgíaco apogeu), tão semeado de
citações, tão carnal e tão solar (não creio que alguém alguma vez tenha filmado
o Sul com tal esplendor) que o realizador até coloca os seres que mais amava
dentro de campo.
Páro
agora. Reparo agora que este texto andou a vaguear, isento de âncoras, ao sabor
das vagas. Nenhum mal. Todavia, talvez. fosse bom explicar duas ou três coisas.
Factos: produzido pelo próprio João César Monteiro, À Flor do Mar foi
rodado em 1985/86, antestreado na Cinemateca em Outubro de 1986, passou por
diversos festivais, teve exibição na RTP2 (19/3/91), estreou em sala, em Paris
(24/2/93), mas nunca conheceu distribuição comercial em Portugal. Factos,
ainda: é um filme que decorre no Algarve, região de Cacela, com frente para a
Ria Formosa, que começa no dia em que Sartawi é assassinado em Montechoro e que
acontece no espaço de uma família em vilegiatura — duas irmãs (Sara e Rosa),
uma cunhada italiana (Laura), os filhos desta, uma velha criada. Um dia, um
homem dá à costa e é recolhido por Laura. Parece chamar-se Robert Jordan e, a
partir desse momento, temos a certeza de que o filme é uma história de quimeras
— até porque, como diz Sara (Manuela de Freitas), este já não é o tempo em que
um homem possa sair das páginas de uma novela de Hemingway.
Jorge
Leitão Ramos
Publicado
no suplemento Cartaz, do jornal Expresso a 22 de Junho de 1996