Por «veredas» da música anda também o cinema.
Mas nem todos os realizadores de primeira grandeza souberam sempre entender a
linguagem dos sons como entendiam a das imagens. A música foi a continua a ser
ainda, em muito bons filmes, quase só um acidente da banda sonora, decorativo,
desprovido de uma função estruturante.
Creio que,
de uma maneira geral o cinema português se tem mantido a margem desta problemática, um tanto indiferente às experiências históricas de Eisenstein –Prokofieff, à critica, já dos
anos quarenta, de Adorno -Eisler,
enfim, ao próprio Charlot para não falar dos casos mais recente de um Visconti
ou de um Kubrick.
Choca-me
sobretudo a insensibilidade dos nossos realizadores em relação à expressão
musical. Ou por falta de informação ou por falta de imaginação, ignoram
positivamente os aspectos mais ricos e mais profundos da música como herança
histórica de uma cultura europeia e de uma cultura portuguesa (feita de música
também, embora haja quem não dê por isso...) e desconhecem as possibilidades
reais que a produção musical hoje lhes pode oferecer (dentro e fora das nossas
fronteiras).
Mas
«Veredas»,de João César Monteiro, é outra coisa. Ali temos na música o mesmo
rigor de concepção que dita as imagens. Temos o Francisco Domingos, que é a
própria voz das nossas raízes étnicas, cantando em dialecto mirandês,
acompanhado pelo «lato» (uma espécie de guitarra, que ele construiu a partir da
carcaça de latão de uma máquina de sulfatar -- soube-o eu pelo J.C.M.). Temos
música profana medieval fonte remota do nosso património musical, tanto
«erudito» como «popular».
Temos a breve «homenagem»a Visconti (ao que parece, não só a Visconti) através do 1º tema da 7ª Sinfonia de Bruckner: a mesma carruagem de «Veredas» e do «Sentimento», em situações completamente diferentes. Temos aquele «Toca com a certeza de que tens todo o tempo e todo o espaço» que nos lança para Stockhausen (a frase é extraída da série de «partituras» verbais deste último: lembrou-mo o J.C.M.). Temos, enfim, em geral, a atenção ao som: na «magia» das mulheres saltitando em torno da fogueira, na faladas euménides, no tear, nos «ruídos da natureza», etc., etc.
E temos
isso tudo organizado, dentro de um mesmo projecto coerente. A aproximação demonstrada,
neste filme (a ver, a rever e a repensar), entre as origens longínquas da
nossa, cultura, da nossa humanidade – a Grécia -, o «discurso» do homem
português rural mais enraizado e « mais autêntico», o romanceiro tradicional, e
o «vanguardismo» (no sentido mais nobre do termo) de Maria Velho da Costa, tem
de certo modo correspondência na aproximação dos diferentes planos musicais.
Para confrontar duas situações
extremas, dir-se-ia que a música implícita no apelo de Stockhausen está tão naturalmente na música
de Francisco Domingues como está nas suas palavras o texto de Maria Velho da
Costa.
Mário
Vieira de Carvalho
Publicado
no jornal Diário de Lisboa, a 6/12 de Maio de 1978