A MUDA
"Montrer mouille"
SERGE DANEY
"O destino
impele-me para o desconhecido e eu bem o mereço"
HOLDERLIN
(fala de Hyperion
a Diotima em Hyperion, citada no final do filme, voz de Luis Miguel Cintra sob
(ou sobre) o écran negro).
1 - Por acaso, escrevo sobre O Último
Mergulho no dia em que a imprensa portuguesa publicou as primeiras críticas aos
dois primeiros filmes ("O Ar" e "O Fogo") da série "Os
Quatro Elementos" em que João César Monteiro se atirou à Água. Foi uma
encomenda da Televisão Portuguesa, depois de uma proposta de Paulo Branco. Os
críticos que hoje leio espantam-se (alguns, virtuosamente, indignam-se) que os
autores dos episódios já estreados (João Botelho e Joaquim Pinto) se tenham
esquecido que estavam a fazer telecinema e não cinema. Ainda não vi os ditos
filmes. Mas, se tiverem razão, benza-os Deus. Deus, que abençoou certeiramente
O Último Mergulho, que é só cinema, todo o cinema e nada mais do que o cinema.
César Monteiro não esqueceu a televisão ou (como é que dizem?) o visual. Pelo
contrário, muito alembrado deles, virou-lhes as costas. Onde queriam
chegadinho, ficou longe. Onde queriam longe, ficou chegadinho. Inventou as
distâncias. O cinema é a arte dessa invenção. E é possível ouvir as citações
finais do Hyperion - uma em francês, outra em português - como manifestos
estéticos, brados guerreiros sobre o cinema e pelo cinema. "Não deixar que
a guerra se arraste, por amor à paz". "Esta terra coberta de luto,
desnudada, que eu tanto queria vestir de bosques sagrados e adornar com todas
as flores da vida grega" é também a terra pilhada do cinema, em 1992. É
também, mas não é só.
Como O Último Mergulho é também, mas não é
só, um canto fúnebre. O Último Mergulho é um filme sobre o Cinema e sobre
Portugal. Como todos os filmes anteriores de João César Monteiro. Este só
talvez seja o mais raivoso. Mas tropeço na ternura e tenho menos certezas.
2 - Vamos lá então começar pela raiva e
pela ternura. Mesmo lembrando-nos bem das provocações das Recordações da Casa
Amarela, jamais César Monteiro foi tão longe nos excessos verbais. Nunca em
filme português algum se ouviu linguagem tão desbragada e tão "off"
(o monólogo da velha paralítica durante o silencioso jantar dos dois candidatos
a suicidas). Como se recorda no filme, antes das Salomés despirem os sete véus,
já dizia o velho Herodes que ou te calas ou te fodes. César Monteiro mediu as
distâncias e decidiu não se calar. Até porque este filme é também - eu diria
sobretudo - um filme sobre o silêncio: uma protagonista muda, cinema mudo.
Abre-se e fecha-se o som. Fez-me lembrar um texto muito antigo do Langlois, a
propósito do L'Atalante de Vigo, em que ele dizia que há filmes em que,
fechado o som, a imagem se achata, e
outros em que, aberto este, a imagem adquire volume. Os dois planos-sequência
das duas danças de Salomé (um, com Strauss, outro sem ele) parecem estar no
filme para demonstrar que há um terceiro caminho. Se a imagem não se achata na
dança muda (ou na dança da muda), é porque na retina e na memória persiste a
dança musical. O que prova que o cinema é questão de tempo: sobretudo questão
de tempo. E é esse tempo que vai deixando que a raiva pouse e que a ternura
comece a vir à tona de água. A primeira dança vê-se com admiração cúmplice,
saboreando as transgressões, sucessivas e compulsivas. É uma sequência de
antologia. Mas é de ontologia que se trata. E, por isso, é quase impossível ver
a segunda dança sem os olhos rasos de água. É já da ordem do mistério, do
mistério do cinema. A grande pureza só possível no grande vazio e no grande
silêncio. Este filme começa afinal com tangos e fados rascas e acaba com as
"Variações Goldberg" quando "as desgraças excederam o
limite" e quando (depois do evergladiano plano dos flamingos) Hyperion
evoca Diotima "Ó minha amada!".
Mas o exemplo supremo da passagem de um
registo a outro, ou seja da raiva à ternura (podia dizer da abjecção ao
sublime, mas não é exactamente a mesma coisa e as palavras e as imagens são de
alta voltagem) é a sequência que encerra a primeira noite, depois do Santo
Antoninho, do chafariz, da "Cantiga da Rua", das putas velhas e dos
bêbedos. Os protagonistas entram numa pensão, chamada 25 de Abril. Três mulheres
e dois homens. A pensão é rasca, a situação é rasca, a dona da pensão é rasca,
a canção que Eloi trauteia é rasca. Os planos, esses, quer o da escada (Frenzy)
quer o do corredor (Vertigo) são hitchcockianos. Há uma cadeira no fundo do
corredor. Entramos primeiro no quarto que Eloi partilha com duas pegas.
Continuamos "a baixo nível", com uma delas sentada na pia em
demoradas lavagens que só por graça se podem dizer íntimas. Corte súbito e
passamos a um grande plano de Samuel e de Esperança olhando a câmara, sentados,
enquadrados a meio-busto. E começam a fazer-se festas um ao outro, muito tempo,
todo o tempo. Nunca deixam de olhar para a câmara como se estivessem diante de
um espelho, espelho que é ela (câmara) e somos nós (espectadores). Como se nos
fizessem festas, também a nós. A situação é cumulativamente "natural"
(sendo ela muda, ou surda-muda, só essa comunicação lhes é possível) e
"artificial". Ou cultural, já que todo o plano (longuíssimo) é uma
homenagem ao cinema mudo, revisitado e glorificado. Mas não se passou de um
mundo a outro sem mais aquelas. A alma e os corpos não se separam assim.
Obscena (isto é, fora de cena) prossegue a banda sonora, recordando-lhes e
recordando-nos o que se passa no quarto ao lado. Até que a câmara recua,
situando os dois, sentados na borda da cama. Ambos se deixam cair para trás,
cair para ela. Corte e a noite acabou. No dia seguinte, um dos suicidas
continua de ilusões perdidas. O outro, sabe já por que e para que quer viver.
No cinema mudo, inventou-se o amor. No corredor de Vertigo perde-se um
personagem e ganha-se outro.
3 - Dos "Quatro Elementos" da
série de que O Último Mergulho faz parte, César Monteiro escolheu a Água. Em
todos os seus filmes anteriores (não me estou a lembrar agora de nenhum que me
desminta), era já o elemento lustral associado à Mãe (Recordações) ou à Morte
(À Flor do Mar). Todos eram filmes líquidos. Aqui - embora gente mais distraída
vos vá dizer que a água é mero pretexto, associada à história do último
mergulho - tudo e todos banham nela. Eloi escolhe-a, fiel ao pacto e à segunda
noite, para o salto mortal, de pés e a pique, como convém ao personagem. Mas,
nesse momento, o seu jovem companheiro separa-se dele e vai comprar o manjerico
com que desperta a amada do sono. E junto ao mesmo rio (afinal duas vezes),
depois de múltiplas rimas com ramos e com flores, acontece esse inadjectivável
travelling no campo de girassóis. Agora, sim, a câmara quase roça os rostos e
as flores. E é o sol (rima maçónica e mozartiana das insígnias dos azulejos da
cervejaria aonde a muda fala a sua carta em francês) que se multiplica em todas
as suas alegorias, para a grande explosão lírica de um amor finalmente
diurno. "Os meus pensamentos mais
sublimes são como chamas que apartam o gelo'.
No princípio, o homem mais velho dissera
ao homem mais novo, impedindo-lhe o último mergulho, que o céu pode esperar.
Por ele, esperou duas noites, uma de fado e outra de ópera. Mas para aquele que
a desoras fora ao pontão para morrer, o céu terá que esperar muito mais. O
cinema mudo e o cinema sonoro - ou seja o cinema, ou seja a vida, ou seja o
amor - determinaram a muda mudança. E, como num filme de Rossellini, o milagre
aconteceu. Por força de duas viagens até ao fim da noite e de tudo quanto
nessas viagens se viu e se viveu. Uma velha que tinha um cão (e debaixo da cama
o tinha), uma "verdadeira princesa", um mercado, um barbeiro que
canta "O Barbeiro de Sevilha", elevadores que sobem, elevadores que
descem, um pé numa almofada, marinheiros russos a cantar "Lê Chant dês
Partisans". O inventário podia ser muito maior. É da acumulação de tudo
isso e dos raccords entre tudo isso (por exemplo, o raccord que leva da criança
entregue pela mãe ao velho rei Herodes do massacre dos inocentes) que nasce o
novo olhar e o olhar novo.
Consolo, só em nós o poderemos buscar. E
encontrar.
4 - No princípio deste texto, invoquei
Deus. Não foi em vão. O Último Mergulho é um filme sagrado, um filme místico.
Quem souber, saberá. Mas Deus - de Deus - é também o alter-ego que João, o
realizador, inventou para si nas Recordações da Casa Amarela. João de Deus.
Veio para ficar. As noites de O Último Mergulho (prodigiosamente fotografadas
por Dominique Chapuis) têm a luz e a sombra das noites das Recordações e
visitam os mesmos bairros, os mesmos becos, os mesmos jardins. Nunca Lisboa foi
tão nocturna, tão lívida, tão secreta, tão recôndita. E, no fim da primeira
noite, pouco antes da subida à pensão 25 de Abril, Deus - João de Deus - visita
o filme, esperando, à porta de uma latrina miserável e com um rolo de papel
higiénico na mão, que de lá saia a sua protagonista. Depois, ele vai
satisfazer necessidades fisiológicas e ela
necessidades teologais.
Mais tarde, no fim da dança dos sete véus
(a primeira), Salomé pede a Herodes a cabeça de João de Deus Baptista. A cabeça
do realizador.
No imenso risco deste filme de tudo ou
nada, o realizador jogou a cabeça no salto mortal da repetição das danças. A
segunda dança é, de certo modo, a resposta ao pedido de Salomé. Se dançares
para mim dar-te-ei o que pedires, peças o que peças, tinha prometido o
Tetrarca. E cumpriu a promessa, quando "a máquina do universo já
tremia".
Aliás, não jogou a cabeça apenas nessa
sequência. Jogou-a em todo o filme, nesses sucessivos mergulhos que
correspondem aos fulgurantes raccords. Cada um desses raccords (tanto como do
da maternidade, gosto do que nos leva das ruas do Cais do Sodré ao interior do
bar, onde está o bebé ao colo da italiana) é mais uma descida para o fundo. E
do fundo do poço (o poço do profeta) passa-se para a mais misteriosa sequência,
essa do quarto da Esperança, com os ramos de árvore à cabeceira e o pé pousado
na almofada mais breve e ocultamente silenciosa. Depois, é o longo travelling a
seguir a protagonista, sozinha, à noite, num jardim de Lisboa. É o fim da noite,
é o fim da mudez, é o fim da mudança. A maré começa a subir e a última água é
baptismal. Mais ce qui m'étonne, c'est 1'Espérance. A citação é de
Péguy. O sujeito da oração é Deus.
Assim se consome este "projecto
verdadeiramente extraordinário". Com uma quadrilha de pêgas e ladrões,
César Monteiro quis estabelecer o Paraíso. Entre girassóis e flamingos,
conseguiu-o.
João Bénard da Costa